Você não começou no dia em que nasceu.
Você começou no útero da sua mãe.

E eu sei que uma parte sua prefere acreditar que ali era só um corpo se formando, sem história, sem registro, sem impacto. Seria mais confortável. Mas não é verdade.

O útero não apaga.
O útero guarda.

Quando você entrou no útero da sua mãe, você não encontrou um espaço vazio. Você encontrou um campo já vivido. Um lugar que carregava memórias de outras gestações, de perdas, de abortos espontâneos ou provocados, de filhos que não vieram, de dores que não foram elaboradas, de relações que machucaram, de medos antigos.

Nada disso desaparece só porque uma nova vida começa.

Você foi introduzido nesse útero.
E conviveu com tudo o que já estava ali.

Na visão sistêmica, especialmente a partir de Bert Hellinger, o corpo da mulher é um território de memória. Não é simbólico. É real. O útero lembra do que foi vivido, do que foi interrompido, do que foi rejeitado e também do que foi desejado, mas perdido.

Enquanto você se formava, você sentia.
Mesmo sem compreender.
Mesmo sem linguagem.

Você sentia o clima emocional daquele lugar.

Talvez a vida já tenha começado pesada para você

Talvez, antes mesmo de respirar, você já estivesse convivendo com:

  • a dor de um aborto anterior

  • o luto de um filho que não ficou

  • o medo de uma nova perda

  • a culpa da sua mãe por algo que ela viveu

  • o sofrimento de gestações difíceis

  • a exaustão de uma mulher que já tinha ido além do limite

E aí acontece algo silencioso e profundo:
o seu corpo aprende que viver é arriscado.

Isso não vira memória consciente.
Vira sensação.

Uma sensação de que:

  • é melhor não ocupar tanto espaço

  • é mais seguro não ir até o fim

  • começar é perigoso

  • existir pode custar caro

Depois, você cresce achando que isso é “seu jeito”.
Não é.
É lealdade.

Você pode estar tentando ser fiel a dores que não começaram em você

Muitas pessoas vivem carregando uma tristeza sem história própria.
Um peso que não combina com a vida que têm.
Uma sensação de que algo ficou para trás, mesmo sem saber o quê.

Quando olhamos sistemicamente, muitas vezes encontramos isso:
uma fidelidade profunda às memórias do útero.

É como se o corpo dissesse:
“Se alguém sofreu aqui antes, eu não posso simplesmente viver em paz.”

E então a vida vira compensação.
Você se limita.
Você se sabota.
Você adia.
Você carrega.

Não por fraqueza.
Por amor cego.

Olhar para isso não é desrespeitar sua mãe

Reconhecer memórias uterinas não é culpar sua mãe.
É parar de infantilizá-la e parar de se sacrificar por ela.

Sua mãe fez o que pôde, com os recursos que tinha, dentro do sistema em que estava.
E você não precisa pagar com a sua vida pelo que foi pesado demais para ela.

Crescer, aqui, é poder dizer internamente:

Eu senti tudo isso.
Isso foi grande.
Mas agora eu fico com o que é meu
e devolvo o que não me pertence.

Sem perdão imposto.
Sem espiritualidade vazia.
Sem fingimento.

Só verdade.

Questões para refletir

1. Em quais áreas da sua vida você se impede de ir até o fim?

Observe onde você começa, mas não sustenta. Relações, projetos, trabalhos, decisões. Muitas vezes isso não é falta de capacidade nem de disciplina. É uma memória corporal antiga que associa continuidade a perigo. Para quem aprendeu muito cedo que começar pode significar perder, ir até o fim parece arriscado demais.

2. Onde você vive como se precisasse compensar algo por estar vivo?

Perceba se você se cobra demais, se sente culpa quando está bem, se acha que precisa sofrer para merecer, ou se sente responsável pelo bem-estar de todos. Esse movimento costuma nascer quando, no início da vida, o corpo aprendeu que existir foi pesado para alguém. A vida passa a ser vivida como dívida, não como direito.

3. O que você carrega como seu, mas não começou em você?

Tristezas sem causa clara, medos sem história, cansaço antigo, sensação de não pertencer ou de estar sempre em risco. Essa pergunta convida você a diferenciar o que é seu destino do que é lealdade às memórias do útero e do sistema da sua mãe. Quando essa distinção acontece, algo profundamente organizador se inicia.

Coquetel de inspiração

DOSE DE SABEDORIA

Os abortos provocados deixam uma marca profunda na alma, uma marca muito profunda. Isso é frequentemente renegado, com os melhores motivos possíveis. A alma não escuta esses bons motivos. Às vezes, dizemos que o aborto é como um meio anticoncepcional, por exemplo, como acontece no Japão. Isso é vivenciado pelas mulheres de lá da mesma forma que aqui. Não há diferença. É vivenciado como uma intervenção profunda na alma.

Crianças abortadas pertencem à família e são vivenciadas assim. Quando isso vem à tona e elas são acolhidas, o seu efeito é benéfico.

Bert Hellinger

(16/12/1925 – 19/09/2019)

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