Nunca foi tão comum ouvir frases como:
“Ele não me obedece.”
“Ela surta quando digo não.”
“Não sei mais o que fazer com meu filho.”
Curiosamente, isso acontece exatamente na geração que mais leu sobre educação, mais consumiu cursos parentais, mais falou sobre consciência emocional e menos apanhou da vida no sentido literal.
Mesmo assim, algo saiu do eixo.
Crianças desreguladas, adolescentes apáticos ou agressivos, pais esgotados, culpados e confusos. Escolas sobrecarregadas. Diagnósticos em excesso. Medicamentos como solução rápida. Telas funcionando como anestesia emocional coletiva.
Do ponto de vista sistêmico, isso não é um problema de comportamento infantil.
É um problema estrutural.
É a terceirização da autoridade adulta.
A crise atual da autoridade parental
Autoridade virou uma palavra malvista. Confundiram autoridade com autoritarismo. Limite com violência. Frustração com trauma.
Resultado: adultos com medo de ocupar o próprio lugar.
Pais negociam o que não é negociável. Explicam demais. Justificam tudo. Pedem desculpas por frustrar. Tentam ser amados quando deveriam ser respeitados.
No sistema familiar, isso gera uma inversão silenciosa e devastadora: a criança sobe, o adulto desce.
E quando o adulto desce do lugar de comando, alguém precisa subir. Sempre.
O sistema não tolera vazio.
Criança no comando não descansa
Esse é um ponto que poucos têm coragem de dizer.
Criança que manda não fica feliz.
Ela fica ansiosa, agitada, irritada ou adoecida.
Quando uma criança percebe que ninguém sustenta o “não”, ela entende algo perigoso:
“Se eu não controlar, ninguém controla.”
Isso é pesado demais para um sistema nervoso em desenvolvimento.
No olhar sistêmico, sintomas infantis frequentemente não pertencem à criança. São sinais de um campo familiar sem hierarquia clara.
Hiperatividade, agressividade, isolamento, crises de raiva, regressões, distúrbios do sono, dificuldade escolar.
Nada disso surge do nada.
São respostas coerentes a um ambiente onde o adulto abriu mão do lugar.
Telas: o novo terceiro pai
Aqui entra um fator absolutamente atual e cotidiano. O celular não é o problema em si. O problema é para que ele está sendo usado.
Na maioria das casas, a tela entrou para cumprir uma função sistêmica: acalmar o que o adulto não sustenta.
O celular virou regulador emocional. Babá. Calmante. Compensação de culpa. Presença artificial. Quando a criança chora, a tela entra. Quando se irrita, a tela entra. Quando exige atenção, a tela entra.
O recado implícito é brutal: Suas emoções são demais para mim. Depois, estranham que essa criança não saiba lidar com frustração, espera ou vazio. Ela nunca aprendeu. Alguém sempre desligou o desconforto por ela.
Pais exaustos não são fracos. Estão deslocados.
É importante dizer isso sem romantizar. A maioria dos pais não está cansada porque trabalha demais. Está cansada porque carrega o que não deveria carregar.
Culpa excessiva.
Medo de repetir a própria história.
Tentativa de compensar ausências reais ou simbólicas.
Confusão entre amor e permissividade.
No sistema, pais cansados geralmente estão tentando ser algo além de pais: amigos, terapeutas, salvadores.
Isso esgota.
Amar não cansa. O que cansa é ocupar um lugar errado.
O lugar do pai e da mãe no olhar sistêmico
No enfoque sistêmico, pai e mãe não são funções intercambiáveis. São forças distintas que estruturam o psiquismo da criança.
Quando um deles se ausenta ou se fragiliza demais, o sistema tenta compensar.
E quem paga a conta costuma ser o filho.
Mães que tentam suprir tudo.
Pais que se retiram emocionalmente.
Casais separados em guerra silenciosa usando a criança como campo de batalha.
Tudo isso gera confusão de lealdade.
A criança ama os pais. Sempre.
Mesmo quando adoece por eles.
A medicalização como tentativa de organizar o sistema
Outro fenômeno atual impossível de ignorar.
Diagnósticos surgem cedo.
Rótulos aliviam momentaneamente.
Medicamentos silenciam sintomas.
Mas sintoma silenciado não é sistema reorganizado.
Do ponto de vista sistêmico, quando se trata apenas a criança, o sistema permanece intacto. E aquilo que não pode aparecer de um jeito, aparece de outro.
Não se trata de negar diagnósticos ou tratamentos quando necessários. Trata-se de parar de fingir que o problema começa e termina na criança.
Ela é a última da hierarquia. Logo, raramente é a origem.
O que Bert Hellinger apontava com clareza desconfortável
Bert Hellinger foi direto onde muitos ainda evitam olhar:
As crianças precisam de pais fortes. Não de pais perfeitos.
Pais fortes não são duros. São inteiros. Não transferem para o filho o peso das próprias dores não resolvidas. Não pedem que a criança os complete. Não se colocam como pequenos diante dela. Sustentam limites mesmo quando isso gera choro, raiva ou afastamento temporário. Porque sabem algo fundamental: frustrar hoje é proteger o futuro.
Limite não rompe vínculo. Ausência de limite, sim.
Essa é uma das maiores mentiras modernas: Se eu frustrar, vou traumatizar.
Traumatiza não haver quem sustente.
Traumatiza o adulto que some quando a criança se desorganiza.
Traumatiza a inversão de papéis.
O limite claro organiza. O não firme acalma depois da tempestade. A previsibilidade gera segurança.
Crianças testam limites não para destruí-los, mas para confirmar que eles existem. Quando não encontram, entram em pânico silencioso.
O preço social dessa desordem
Nada disso fica restrito à família.
Crianças desorganizadas viram adultos intolerantes à frustração.
Ambientes de trabalho adoecidos.
Relacionamentos frágeis.
Dependência emocional.
Busca constante por validação externa.
O que hoje aparece como “problema de comportamento infantil” amanhã aparece como ansiedade crônica, depressão, burnout e relações vazias.
O sistema cobra. Sempre.
Questões para refletir
1. Onde você tem medo de ser firme e chama isso de amor?
Essa pergunta aponta para o ponto exato em que o adulto evita sustentar um limite por medo de perder afeto, aprovação ou vínculo. O que costuma ser chamado de amor, na prática, é a tentativa de não frustrar para não encarar a própria insegurança, culpa ou história mal resolvida. No olhar sistêmico, amor organiza; quando o medo comanda, o limite cai e a criança sobe para um lugar que não é dela.
2. O que você evita sentir quando entrega a regulação emocional do seu filho a uma tela?
Aqui o foco não é a tela, mas a fuga. O celular entra para silenciar emoções que o adulto não suporta acompanhar: choro, raiva, vazio, tédio ou dependência. Ao terceirizar a regulação emocional da criança, o adulto também evita entrar em contato com emoções próprias que nunca foram acolhidas. O alívio é imediato, mas o custo é a ausência de presença real.
3. Que dor sua está sendo carregada pela criança sem que você perceba?
Coquetel de inspiração
DOSE DE SABEDORIA
Todas as crianças são boas se deixarmos que sejam boas, isto é, se ao invés de olharmos apenas para as crianças, olharmos com amor para onde elas olham com amor.
Nossos pais são bons e que por trás de todas as coisas pelas quais criticamos nossos pais, atua o amor. Contudo, esse amor não está voltado para nós, mas para outro lugar. Está voltado para onde eles olharam quando crianças, para alguém que queriam trazer para dentro da família. Se começarmos a dar um lugar dentro de nós para esses excluídos, olharemos junto com os nossos pais para o lugar onde eles amam. Então ficamos livres, e nossos pais também.
Bert Hellinger
(16/12/1925 – 19/09/2019)
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